Uso Racional de Medicamentos (URM) como ferramenta para combater a desinformação na saúde
Por Isabela Diniz Gusmão de Oliveira
Pós-doutoranda pela Programa de Assistência Farmacêutica (PPGASFAR)- Polo UnB
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o uso racional do medicamento (URM) acontece quando o paciente utiliza o medicamento certo, no horário certo, durante o período adequado e ao menor custo para si e para a comunidade.(1)
Geralmente o URM está relacionado à utilização do medicamento precedida por uma anamnese realizada por profissional de saúde, que avaliou as possibilidades terapêuticas adequadas ao caso em questão e instituiu uma intervenção por meio do uso de medicamentos. Todas as dúvidas foram resolvidas, porque a relação terapêutica existente entre os envolvidos foi consolidada por meio de uma troca de informações clara, confiável e acessível.(2)
Além disso, em muitas situações cotidianas que envolvem o paciente e um profissional de saúde, a racionalidade pode estar em não utilizar um medicamento ou se ater exclusivamente na instituição de medidas não medicamentosas. (2)
Ao mesmo tempo, existe a preocupação em integrar os preceitos do uso racional do medicamento com diversas práticas clínicas. Nesse contexto, podemos citar as diretrizes da desprescrição de medicamentos, para reduzir o número de medicamentos prescritos em pacientes polimedicados por meio de acompanhamento clínico periódico.(3)
Também é notória a mobilização da sociedade com os propósitos da saúde única (ou uma só saúde) a fim de manter o equilíbrio e a conexão entre a saúde humana, animal, vegetal e o meio ambiente. Nesse contexto, diversas estratégias são utilizadas, tais como, o alerta sobre o uso desnecessário de antimicrobianos, a orientação sobre descarte correto dos medicamentos e a conscientização da população e dos profissionais de saúde sobre esse tema.(4)
No entanto, o uso racional de medicamentos é um propósito bastante desafiador, diante do volume de desinformação em saúde que estamos vivenciando ao longo dos tempos. As práticas envolvem desde a divulgação de informações sem evidência cientifica até “curas ou tratamentos” inacreditáveis pelo olhar da ciência. (5,6)
Observa-se também uma infinidade de influenciadores digitais sem conhecimento técnico, nem formação profissional, que fazem propaganda de medicamentos comparando-os como objetos de consumo, sem alertar a população sobre os perigos que podem estar expostos. Concomitantemente, existem profissionais de saúde despreparados conceitualmente sobre as práticas baseadas em evidência e com dificuldades de intepretação de artigos científicos e análise da relevância clínica e estatística. (6)
As consequências desse cenário se refletem no uso inadequado e excessivo de medicamentos na população brasileira, aumento das intoxicações medicamentosas, e principalmente a redução da qualidade de vida das pessoas. Esse cenário aumenta os índices de morbidade e podem contribuir de forma significativa para a mortalidade das populações mais vulneráveis com crianças e idosos.(7)
Do ponto de vista financeiro, observam-se um volume de internações clínicas evitáveis, prolongamento da média de permanência hospitalar e aumento dos custos para as pessoas acometidas e para o sistema de saúde. (7)
Nesse sentido, é fundamental aprender a distinguir as informações provenientes das principais redes sociais (Instagram, facebook, youtube, TikTok), analisar as evidências descritas nos conteúdos e ajudar a na disseminação de informações confiáveis.(5,6,8,9)
Essa é a proposta do Observatório de informação sobre medicamentos na internet (ObservaRx), uma plataforma criada para discutir sobre as melhores práticas em saúde, prezando por uma curadoria digital eficiente, didática e acessível ao público interessado.
Se você gostou dessa análise e quer se aprofundar em algum assunto, deixo aqui algumas referências interessantes:
- Nairobi) C de E sobre UR de los M (1985: Uso racional de los medicamentos: informe de la Conferencia de Expertos, Nairobi, 25-29 de noviembre de 1985 [Internet]. iris.who.int. Organización Mundial de la Salud; 1986. Disponível: https://iris.who.int/handle/10665/37403.
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde. Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. Contribuições para a promoção do Uso Racional de Medicamentos [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Departamento de Assistência Farmacêutica e Insumos Estratégicos. – Brasília : Ministério da Saúde, 2021. 154 p.: il. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/contribuicoes_promocao_uso_racional_medicamentos_v2.pdf
- Desai M, Park T. Deprescribing practices in Canada: A scoping review. Canadian Pharmacists Journal / Revue des Pharmaciens du Canada. 2022 Aug 17;155(5):249–57. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9445505/
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Plano de ação nacional de prevenção e controle da resistência aos antimicrobianos no âmbito da saúde única 2018-2022 (PAN-BR) / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. – Brasília: Ministério da Saúde, 2018. Disponível em : https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/plano_prevencao_resistencia_antimicrobianos.pdf
- Brum M, Ferreira L, Guimarães L. A INFLUÊNCIA E OS RISCOS DAS MÍDIAS SOCIAIS NO USO DE MEDICAMENTOS PARA EMAGRECER. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação [Internet]. 2024 Nov 5 [cited 2025 Feb 17];10(11):810–22. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/16521
- Marques S, Cardoso E, Gabriely A, Marçal B. A INFLUÊNCIA DAS MÍDIAS SOCIAIS NO USO DE MEDICAMENTOS. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação. 2023 Dec 4;9(11):403–11. Disponível em : https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/12488
- Silva RMC. A importância do uso racional de medicamentos [monografia]. Fortaleza: Universidade de Fortaleza; 2019. Disponível em: https://repositorio.unilab.edu.br/jspui/bitstream/123456789/6824/1/RAVENNA%20MAYZA%20CAVALCANTE%20DA%20SILVA.pdf
- Paula CC da S, Campos RBF, Souza MCRF de. Uso irracional de medicamentos: uma perspectiva cultural / Irrational use of medicines: a cultural perspective. Brazilian Journal of Development [Internet]. 2021 Mar 4;7(3):21660–76. Disponível: https://www.brazilianjournals.com/index.php/BRJD/article/view/25683/20418
- Lima Valasques Júnior G. SAÚDE BASEADA EM EVIDÊNCIA E A PRÁTICA DA FARMÁCIA. Revista Científica Eletrônica do Conselho Regional de Farmácia da Bahia. 2024 Jan 8;e03012401. Disponível em: https://rce.crf-ba.org.br/index.php/home/article/view/49
Data: 31/10/2025.
