Uso Racional de Antimicrobianos e a Interface com os preceitos de Uma Só Saúde Desafios e Estratégias na Promoção da Saúde à Resistência aos Antimicrobiana

Por Debora Raymundo Melecchi¹ e Leetícia Carlette Malacarne²

Revisado por Dayani Galato3, Emília Vitória da Silva3 e Pamela Alejandra Saavedra4

¹ farmacêutica formada pela Faculdade de Farmácia da UFRGS (97/2); mestranda do PPGASFAR, polo UFRGS

² farmacêutica formada pelo Centro Universitário São Camilo (25/2); mestranda do PPGASFAR do polo UVV

3 docentes permanentes do Programa de Pós-Graduação em Assistência Farmacêutica, Universidade de Brasília

4 Farmacêutica do Conselho Federal de Farmácia e estagiária em pós-doutoramento do Programa de Pós-Graduação em Assistência Farmacêutica, Universidade de Brasília

Resumo

A resistência aos antimicrobianos (RAM) é uma ameaça global à saúde. Neste texto analisa-se fatores que impulsionam a RAM e o papel da Uma Só Saúde  no uso racional de antimicrobianos. Com base em fontes da Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e Ministério da Saúde do Brasil, foram identificados determinantes sociais, ambientais e regulatórios sobre a temática. Conclui-se que o enfrentamento da RAM requer ações entre vários setores da sociedade e uma regulamentação rigorosa e educação em saúde, com destaque ao papel da(o)s farmacêutica(o)s.

Palavras-chave: Resistência aos antimicrobianos; Uso racional de medicamentos; Uma Só Saúde; Vigilância em Saúde.

  1. Introdução

A resistência aos antimicrobianos (RAM) ocorre quando microrganismos se tornam resistentes aos medicamentos, comprometendo tratamentos e aumentando mortalidade e custos hospitalares. No Brasil, o problema é agravado pela desigualdade no acesso à saúde e pela fragmentação das políticas públicas. Uma Só Saúde, que integra saúde humana, animal e ambiental, é essencial para políticas eficazes e sustentáveis no enfrentamento da RAM.

2.    Método

O texto foi construído baseado nos dados apresentados em relatórios oficiais (OMS, OPAS, Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) e Ministério da Saúde) e artigos científicos, considerando os descritores de busca sobre uso racional de antimicrobianos, resistência microbiana e aplicação do conceito de Uma Só Saúde em políticas públicas.

3.  Fundamentação Teórica

  • Epidemiologia e impacto da RAM

A RAM causou cerca de 1,27 milhão de mortes diretas, em 2019, e pode atingir 10 milhões até 2050. No Brasil, estimam-se 34 mil mortes anuais (BRASIL. Ministério da Saúde, 2024). Seus impactos econômicos globais podem ultrapassar três trilhões de dólares por ano (Banco Mundial, 2017).

3.2    Mecanismos de resistência

RAM acontece devido a mutações genéticas e transferência horizontal de genes entre microrganismos. Genes como mcr-1, blaCTX-M e blaNDM-1 conferem resistência a antimicrobianos críticos. Sua disseminação está ligada ao uso inadequado de antimicrobianos, contaminação ambiental e globalização das cadeias alimentares.

3.3    Causas do aumento da RAM

Entre os principais fatores relacionados ao aumento da resistência antimicrobiana estão uso indiscriminado de antimicrobianos, automedicação, prescrição inadequada, falhas no controle veterinário e descarte ambientalmente incorreto. Estudos reforçam a necessidade de integração entre Anvisa e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) além da ampliação de ações educativas à população (Silva et al., 2025; Rached et al., 2025).

3.4   A abordagem de Uma Só Saúde

Uma Só Saúde reconhece a conexão entre saúde humana, animal e ambiental, promovendo ações integradas e sustentáveis. O Decreto nº 12.007/2024 criou o Comitê Técnico Interinstitucional de Uma Só Saúde e o Plano de Ação Nacional-Uma Só Saúde, fortalecendo o papel intersetorial na coordenação das ações contra a RAM.

O Plano de Ação Nacional de Uma Só Saúde (PAN-BR Saúde Única) adota esta perspectiva integrando ações intersetoriais. A iniciativa reconhece a referida conexão para prevenir e controlar ameaças à saúde e aos ecossistemas, como epidemias, zoonoses e resistência a antimicrobianos. Busca reforçar capacidades institucionais, promover a cooperação multissetorial e a participação da sociedade.

O PAN-AGRO, do MAPA, aplica Uma Só Saúde na agropecuária. Focado na prevenção e controle da RAM na produção animal e alimentos, o programa articula vigilância, monitoramento e ações alinhadas com as recomendações da Aliança Quadripartite (OMS/FAO/OMSA/PNUMA).

O PAN-VISA da ANVISA é um plano setorial de vigilância sanitária focado na resistência microbiana, a qual detalha estratégias de detecção, prevenção e redução da RAM nos serviços de saúde brasileiros, alinhando-se a Uma Só Saúde e complementando o PAN-BR.

3.5   Políticas públicas e o papel do SUS

A abordagem de Uma Só Saúde exige a integração de ações em diversos setores — saúde, agricultura, meio ambiente, ciência e tecnologia — para reconhecer a interconexão da saúde humana, animal, ambiental e dos sistemas de produção. Nesse sentido, as políticas públicas atuam como instrumentos estratégicos essenciais para a concretização dessa abordagem, sendo o SUS o principal executor destas políticas públicas.

A atuação coordenada do Estado, aliada ao planejamento de longo prazo e à participação social, é essencial para respostas sustentáveis que protejam a vida, o ambiente e o desenvolvimento social. Nesta perspectiva é importante destacar a relevância da educação permanente para subsidiar as ações de Uma Só Saúde, e a categoria farmacêutica têm papel essencial para a promoção do uso racional de medicamentos, incluindo os antimicrobianos.

4.    Conclusão

A RAM é um desafio global de saúde pública. Mas, Uma Só Saúde fortalece políticas e amplia a resposta às emergências sanitárias. É essencial que o Brasil avance no controle do uso de antimicrobianos e na educação sobre uso racional e descarte adequado.

Referências

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Uso Racional de Antimicrobianos e a Interface com os preceitos de Uma Só Saúde Desafios e Estratégias na Promoção da Saúde à Resistência aos Antimicrobiana © 2026 by Debora Raymundo Melecchi; Leetícia Carlette Malacarne; Pamela Alejandra Saavedra; Dayani Galato; Emília Vitória da Silva is licensed under CC BY 4.0

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